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Conhece uma pessoa acumuladora? Psiquiatra explica o que fazer – e o que jamais fazer

Rodrigo Amarildo por Rodrigo Amarildo
6 de novembro de 2026
no Geral
Conhece uma pessoa acumuladora? Psiquiatra explica o que fazer – e o que jamais fazer
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Dra. Maria Fernanda Caliani alerta para os riscos da limpeza forçada e apresenta quatro passos práticos para familiares e amigos ajudarem pessoas com transtorno de acumulação sem aumentar o sofrimento


Quem convive com uma pessoa acumuladora muitas vezes sente vontade de resolver o problema de uma única vez: chamar um caminhão, retirar tudo da casa e começar do zero.

Para a Dra. Maria Fernanda Caliani, médica psiquiatra, esse é justamente um dos maiores erros que familiares e amigos podem cometer.
“Eu sei que a intenção é a melhor possível. Você olha para aquela casa, vê o sofrimento da pessoa e pensa que, se tirar tudo dali, ela vai perceber como é bom viver em um ambiente organizado. Mas a limpeza forçada pode gerar uma sensação muito grande de violação e sofrimento”, alerta a psiquiatra.

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Segundo a médica, retirar os objetos sem a participação da pessoa não significa tratar o transtorno.

“Você não está cuidando da doença. Está retirando aquilo que, para aquela pessoa, possui um significado emocional. A tendência é que ela volte a acumular porque o problema que levou à acumulação continua existindo”, explica a Dra. Maria Fernanda Caliani.

O PROBLEMA NÃO É APENAS A BAGUNÇA

A psiquiatra ressalta que o transtorno de acumulação precisa ser compreendido como uma condição psiquiátrica.
A lógica de quem observa de fora é muito diferente daquela vivida pela pessoa que acumula.

“Tentar convencer um acumulador a jogar algo fora usando apenas a lógica da limpeza é como falar português com alguém que só entende mandarim. Vocês estão falando línguas diferentes”, compara a médica.

Para explicar o que acontece, a Dra. Maria Fernanda Caliani usa a imagem de um filtro de spam de e-mail.

“Quando você recebe um panfleto ou alguma coisa sem importância, o seu cérebro consegue classificar aquilo rapidamente como algo que pode ser descartado. No cérebro de uma pessoa com transtorno de acumulação, esse filtro não funciona da mesma forma. Muitos objetos acabam sendo classificados como importantes, urgentes ou emocionalmente valiosos”, explica a psiquiatra.

Para essas pessoas, acrescenta a médica, um objeto aparentemente sem valor pode carregar um significado muito maior.

“Não existe necessariamente a mesma diferença emocional entre guardar uma joia de família e guardar uma embalagem vazia. Cada objeto pode carregar identidade, memória ou uma sensação de proteção.”

POR QUE JOGAR FORA PODE SER TÃO DIFÍCIL?

Segundo a Dra. Maria Fernanda Caliani, o sofrimento provocado pela necessidade de decidir sobre o descarte é real.
“Estudos de neuroimagem mostram que, quando uma pessoa com transtorno de acumulação precisa decidir se vai jogar algo fora, regiões do cérebro relacionadas ao conflito, ao sofrimento e à tomada de decisão podem ficar intensamente ativadas”, explica a médica.

Por isso, simplesmente exigir que a pessoa “jogue tudo fora” costuma gerar resistência.
“Para ela, não é só uma embalagem, um jornal ou uma caixa. Existe uma ligação emocional. Por isso, o descarte pode gerar uma angústia muito intensa”, ressalta a psiquiatra.

Sabendo disso, a médica propõe quatro passos práticos para quem deseja ajudar.

PASSO 1: MUDE O VOCABULÁRIO

A primeira orientação é abandonar palavras que possam ser percebidas como agressivas ou depreciativas.

“Lixo, entulho, bagunça e porcaria são palavras que precisam sair do vocabulário quando você estiver conversando com essa pessoa”, afirma a Dra. Maria Fernanda Caliani.

Segundo a psiquiatra, esses termos podem colocar o acumulador imediatamente em posição de defesa.
A orientação é substituí-los por palavras neutras, como pertences, coleções ou itens.

“Em vez de dizer ‘precisamos jogar esse lixo fora’, você pode dizer: ‘Eu sei que esses pertences são importantes para você. Vamos organizar esses itens juntos para que eles fiquem melhor guardados’”, exemplifica a médica.

A mudança de linguagem também altera a relação entre quem tenta ajudar e quem sofre com o transtorno.
“Você deixa de aparecer como inimigo e passa a ser um aliado”, ressalta a Dra. Maria Fernanda Caliani.

PASSO 2: PRIMEIRO, PENSE EM SEGURANÇA

Outro erro comum, segundo a psiquiatra, é tentar transformar imediatamente a casa em um ambiente completamente organizado.
“O objetivo inicial não é fazer uma casa de capa de revista. Se você focar primeiro na estética, provavelmente vai perder a batalha. O foco inicial precisa ser segurança”, afirma a médica.

A estratégia sugerida pela Dra. Maria Fernanda Caliani é trabalhar com redução de danos.
Isso significa priorizar locais que ofereçam risco de acidentes.

“Em vez de dizer ‘essa sala está horrível’, você pode falar: ‘Mãe, eu te amo e estou com medo de você tropeçar nessas caixas. Podemos liberar apenas esse caminho para você andar com segurança?’”, exemplifica a psiquiatra.

Outro exemplo envolve o risco de incêndio.
“Se existem jornais encostados no fogão, você pode dizer: ‘Pai, esses jornais aqui me preocupam porque existe risco de incêndio. Vamos apenas movê-los para outro lugar?’”, orienta a médica.

O importante, segundo ela, é perceber a diferença entre pedir para jogar fora e pedir para mover.
“Você está focando na segurança e não atacando o vínculo emocional que a pessoa possui com os objetos”, destaca a Dra. Maria Fernanda Caliani.

PASSO 3: O DESCARTE PRECISA SER GUIADO

O terceiro passo é começar a trabalhar a tomada de decisão junto com a própria pessoa.
“Você não pode fazer o descarte por ela. Ela precisa participar desse processo porque é justamente essa capacidade de decidir que precisa ser treinada”, explica a psiquiatra.
Uma estratégia prática sugerida pela médica é utilizar três caixas: manter, doar e descartar.

A pessoa deve analisar um objeto por vez e decidir em qual categoria ele se encaixa.
“No começo, pode acontecer de 99% dos objetos irem para a caixa do ‘manter’. E tudo bem. O objetivo inicial não é esvaziar a casa. É treinar o cérebro daquela pessoa para tomar decisões”, afirma a Dra. Maria Fernanda Caliani.

A psiquiatra compara esse processo a uma espécie de treinamento gradual.
“É como uma fisioterapia cerebral. O terapeuta não começa pedindo para a pessoa jogar o sofá da sala fora. Pode começar com um panfleto. Se ela consegue descartar um único panfleto, aquilo já é um avanço”, ressalta a médica.


O trabalho, segundo ela, precisa respeitar o ritmo da pessoa.
“É trabalho de formiguinha, mas é esse processo gradual que pode construir resultados mais consistentes.”

PASSO 4: QUEM CUIDA TAMBÉM PRECISA DE CUIDADO

A Dra. Maria Fernanda Caliani chama atenção ainda para o impacto do transtorno sobre toda a família.
“O desgaste de tentar ajudar uma pessoa acumuladora pode adoecer a casa inteira”, alerta a psiquiatra.

Segundo a médica, familiares e cuidadores podem desenvolver ansiedade, depressão, exaustão e sentimentos intensos de frustração.
Por isso, é fundamental reconhecer limites.
“Você não é o psiquiatra da sua amiga, da sua mãe ou do seu pai. Você é rede de apoio”, reforça a Dra. Maria Fernanda Caliani.

A psiquiatra destaca que o tratamento do transtorno de acumulação vai além da organização física da casa.
“O tratamento não é faxina. A terapia cognitivo-comportamental tem papel importante e, em alguns casos, também pode haver indicação de medicação psiquiátrica para ajudar a controlar sintomas associados e a angústia”, explica a médica.

Quem acompanha o paciente também pode precisar de suporte psicológico.
“Você também precisa ter um espaço seguro para falar sobre a sua frustração, o seu cansaço e os seus limites”, ressalta a psiquiatra.

COLOCAR LIMITES NÃO É ABANDONAR

Para a Dra. Maria Fernanda Caliani, impor limites saudáveis também faz parte do cuidado.
“Você pode dizer: ‘Eu te amo, mas só consigo continuar te ajudando a organizar a casa se você aceitar procurar ajuda médica comigo’. Isso não é abandono. É proteção”, afirma a médica.
Segundo a psiquiatra, familiares muitas vezes assumem responsabilidades que ultrapassam aquilo que conseguem suportar.

“Você pode ajudar, acompanhar, incentivar e estar ao lado da pessoa. Mas não consegue tratar sozinho um transtorno psiquiátrico.”

O TRANSTORNO DE ACUMULAÇÃO TEM TRATAMENTO

Apesar das dificuldades, a Dra. Maria Fernanda Caliani reforça que existe possibilidade de melhora.

“O transtorno de acumulação tem tratamento. A casa pode voltar a ser um lar e a pessoa pode recuperar liberdade”, afirma a psiquiatra.
O processo, no entanto, exige paciência.

“É preciso técnica, tempo, acompanhamento médico e, acima de tudo, muito respeito pela dor do outro”, conclui a médica.
Mais do que retirar objetos, ajudar alguém com transtorno de acumulação significa compreender que existe sofrimento por trás daquele comportamento e que uma mudança duradoura precisa acontecer com participação, tratamento e apoio.

Fonte: Dra. Maria Fernanda Caliani – médica psiquiatra

Rodrigo Amarildo

Rodrigo Amarildo

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